{"id":34170,"date":"2026-11-01T15:48:16","date_gmt":"2026-11-01T18:48:16","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalcandango.com.br\/?p=34170"},"modified":"2026-11-01T15:48:16","modified_gmt":"2026-11-01T18:48:16","slug":"cafu-defende-neymar-cobra-a-selecao-e-relembra-a-conquista-do-penta-video","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalcandango.com.br\/?p=34170","title":{"rendered":"Cafu defende Neymar, cobra a Sele\u00e7\u00e3o e relembra a conquista do penta; V\u00eddeo"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>H\u00e1 imagens que ficam na mem\u00f3ria de um pa\u00eds. Cafu levantando a ta\u00e7a do pentacampeonato \u00e9 uma delas. Naquele gesto, um menino do Jardim Irene, na periferia de S\u00e3o Paulo, erguia o sonho de milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p>Antes de chegar ali, ouviu muitas vezes que n\u00e3o servia. Voltou, tentou de novo, conquistou seu lugar. Disputou tr\u00eas finais consecutivas de Copa do Mundo, venceu duas e se tornou o capit\u00e3o de uma sele\u00e7\u00e3o que o Brasil ainda guarda com saudade.<\/p>\n<p>A bra\u00e7adeira reconhecia uma lideran\u00e7a constru\u00edda no conv\u00edvio: o jogador que chegava cedo, treinava mais, cobrava e cuidava dos companheiros. Em um grupo de estrelas, Cafu conquistou respeito pelo exemplo. E atravessou os maiores palcos do futebol sem perder o sorriso de quem sabia o quanto havia caminhado para estar ali.<\/p>\n<p>Fora de campo, levou consigo a lembran\u00e7a do menino que precisava de uma chance. Do sert\u00e3o brasileiro a Mo\u00e7ambique, ajudou outras crian\u00e7as a encontrar oportunidades. O sonho que come\u00e7ou no Jardim Irene abriu caminhos para os sonhos de muitos outros meninos e meninas.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029Va9kFgRId7nRaEwtHh1m\" class=\"flex justify-center items-center gap-3 px-3 py-2.5 bg-green-500 text-white! no-underline! font-bold rounded-full my-4\"><span class=\"inline-flex gap-3 items-center max-w-10\/12 text-sm leading-4.5 font-semibold font-sans tracking-tighter whitespace-pre-line md:whitespace-normal xs:max-w-9\/12 md:text-lg md:max-w-full\"><svg width=\"40\" height=\"40\" viewbox=\"0 0 24 24\" fill=\"currentColor\" aria-hidden=\"true\" class=\"shrink-0\"><path d=\"M17.472 14.382c-.297-.149-1.758-.867-2.03-.967-.273-.099-.471-.148-.67.15-.197.297-.767.966-.94 1.164-.173.199-.347.223-.644.075-.297-.15-1.255-.463-2.39-1.475-.883-.788-1.48-1.761-1.653-2.059-.173-.297-.018-.458.13-.606.134-.133.298-.347.446-.52.149-.174.198-.298.298-.497.099-.198.05-.371-.025-.52-.075-.149-.669-1.612-.916-2.207-.242-.579-.487-.5-.669-.51-.173-.008-.371-.01-.57-.01-.198 0-.52.074-.792.372-.272.297-1.04 1.016-1.04 2.479 0 1.462 1.065 2.875 1.213 3.074.149.198 2.096 3.2 5.077 4.487.709.306 1.262.489 1.694.625.712.227 1.36.195 1.871.118.571-.085 1.758-.719 2.006-1.413.248-.694.248-1.289.173-1.413-.074-.124-.272-.198-.57-.347m-5.421 7.403h-.004a9.87 9.87 0 01-5.031-1.378l-.361-.214-3.741.982.998-3.648-.235-.374a9.86 9.86 0 01-1.51-5.26c.001-5.45 4.436-9.884 9.888-9.884 2.64 0 5.122 1.03 6.988 2.898a9.825 9.825 0 012.893 6.994c-.003 5.45-4.437 9.884-9.885 9.884m8.413-18.297A11.815 11.815 0 0012.05 0C5.495 0 .16 5.335.157 11.892c0 2.096.547 4.142 1.588 5.945L.057 24l6.305-1.654a11.882 11.882 0 005.683 1.448h.005c6.554 0 11.890-5.335 11.893-11.893A11.821 11.821 0 0020.465 3.488\"\/><\/svg>Entre no canal de WhatsApp <!-- --><br \/>\n<!-- -->do<!-- --> <!-- -->Metr\u00f3poles<\/span><\/a><\/p>\n<p>Hoje, no Que Dia, nossa conversa \u00e9 com Cafu, o capit\u00e3o do penta. Vamos falar das vit\u00f3rias, das derrotas, da responsabilidade de conduzir um grupo e dos caminhos que o futebol pode abrir. E ouvir o homem que, ao levantar uma ta\u00e7a, fez um pa\u00eds inteiro levantar os bra\u00e7os com ele.<\/p>\n<p>Confira os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><iframe title=\"Cafu defende Neymar, cobra Sele\u00e7\u00e3o, lembra conquista do penta e legado no futebol | QUE DIA, MATHEUS\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rioCAQcp8Do?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 No ano passado, antes da Copa, voc\u00ea dizia que o Brasil era favorito absoluto ao t\u00edtulo. Depois da elimina\u00e7\u00e3o nas oitavas de final, o que a Copa mostrou que n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos enxergando?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Para mim, o Brasil sempre vai ser favorito em qualquer competi\u00e7\u00e3o em que a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira entrar. Independentemente do per\u00edodo, de estar jogando bem ou mal, quando se fala de uma competi\u00e7\u00e3o oficial como a Copa do Mundo, n\u00f3s j\u00e1 revertemos v\u00e1rias vezes a situa\u00e7\u00e3o: sa\u00edmos desacreditados do Brasil e fomos campe\u00f5es.<\/p>\n<p>Eu acreditava pelo potencial do treinador, pelo potencial dos jogadores. Acreditava, como o Brasil inteiro acreditou, que o Brasil poderia chegar um pouco mais longe. Copa do Mundo sempre nos traz algumas surpresas em rela\u00e7\u00e3o a alguns jogos. O que mudou daquele pensamento para agora talvez seja a maneira como os meninos entraram em campo. Isso fez com que a gente mudasse um pouco de ideia.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea escreveu depois da derrota que ela \u201cd\u00f3i, e muito\u201d, mas lembrou que tamb\u00e9m viveu as frustra\u00e7\u00f5es de 1998 e 2006. O peso emocional de uma elimina\u00e7\u00e3o muda com o passar dos anos ou a dor de uma derrota em Copas do Mundo permanece exatamente igual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 A de 1998 foi completamente diferente da derrota de 2006, porque em 1998 n\u00f3s chegamos \u00e0 final. Realmente, perder d\u00f3i, perder \u00e9 dif\u00edcil, perder n\u00e3o \u00e9 legal. Ningu\u00e9m quer perder, mas sabemos que do lado de l\u00e1 existe um advers\u00e1rio que tamb\u00e9m est\u00e1 pronto para ganhar de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Perder uma final de Copa do Mundo \u00e9 diferente de perder na fase de grupos, nas oitavas ou nas quartas de final. O sentimento \u00e9 diferente de perder nas quartas achando que conseguiria caminhar um pouco mais. S\u00e3o pesos diferentes.<\/p>\n<p>Perdemos em 1998 e ganhamos em 2002. Em 2002, j\u00e1 entramos completamente diferentes do que em 1998. E mesmo ganhando em 2002, isso n\u00e3o me dava certeza de que ganhar\u00edamos em 2006. Copa do Mundo s\u00e3o jogos em que, passada a primeira fase do mata-mata, a chance de erro tem que ser m\u00ednima.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Mas ainda d\u00f3i a derrota naquela final de 1998?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 De verdade, n\u00e3o. Porque quatro anos depois eu j\u00e1 estava sendo campe\u00e3o. Em 2005, perdemos uma final da Champions League para o Liverpool e, em 2007, est\u00e1vamos sendo campe\u00f5es novamente.<\/p>\n<p>A derrota d\u00f3i, mas ela n\u00e3o tem que ser maior do que a vit\u00f3ria. Eu n\u00e3o posso priorizar uma derrota em rela\u00e7\u00e3o a uma vit\u00f3ria, a ser campe\u00e3o do mundo, a ser pentacampe\u00e3o do mundo. Vou priorizar sempre a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 O Brasil n\u00e3o conquista uma Copa desde 2002, justamente a sele\u00e7\u00e3o da qual voc\u00ea foi capit\u00e3o. Depois de tanto tempo, ainda \u00e9 correto explicar esse jejum apenas pelo que acontece dentro de campo ou existe algo mais profundo na forma\u00e7\u00e3o do futebol brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Est\u00e1 na hora de quebrar esse paradigma novamente. Ach\u00e1vamos que iria acontecer agora, depois de 24 anos. N\u00e3o aconteceu. Vamos esperar 28 anos para que o Brasil possa conquistar um t\u00edtulo novamente. Essa sequ\u00eancia \u00e9 ruim para a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>Existe uma ci\u00eancia exata para explicar por que o Brasil n\u00e3o conquista o t\u00edtulo h\u00e1 24 anos? N\u00e3o tem uma ci\u00eancia exata para explicar jogos de Copa do Mundo ou uma derrota de Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Depois de 1970, at\u00e9 ganhar em 1994, tivemos sele\u00e7\u00f5es consideradas por todo mundo as melhores do mundo, e acabamos n\u00e3o ganhando. Quem ganhou foi uma sele\u00e7\u00e3o trabalhadora, de oper\u00e1rios, que sabia as suas limita\u00e7\u00f5es e foi campe\u00e3 do mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem uma explica\u00e7\u00e3o exata, porque ningu\u00e9m entra em campo para perder. A Sele\u00e7\u00e3o Brasileira entra para ganhar e entra como favorita. Mas talvez uma falta de concentra\u00e7\u00e3o, talvez uma jogada ou outra que poderia ter feito melhor\u2026 A gente poderia ter superado esse recorde de 24 anos.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea fez parte de uma gera\u00e7\u00e3o que chegou a tr\u00eas finais consecutivas de Copa do Mundo. O que aquela sele\u00e7\u00e3o tinha, do ponto de vista de ambiente, lideran\u00e7a e personalidade, que voc\u00ea sente falta hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Personalidade, 100%. Lideran\u00e7a, 100%. Comprometimento, 100%. E dedica\u00e7\u00e3o, 100%.<\/p>\n<p>Era f\u00e1cil liderar aquela sele\u00e7\u00e3o, porque costumo falar que n\u00e3o \u00e9 o cargo que faz o l\u00edder, \u00e9 a postura. \u00c9 a postura de l\u00edder que faz com que as pessoas te sigam. Eu j\u00e1 estava na minha terceira Copa do Mundo, na minha terceira final, e l\u00edder \u00e9 exemplo. Sabia que tinha que ser um exemplo para aqueles meninos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o podia, como l\u00edder, chegar 30 minutos depois do treinamento e sair 30 minutos antes. Chegava 40 minutos antes e sa\u00eda 40 minutos depois, mostrando o meu comprometimento, a minha for\u00e7a de vontade e a minha dedica\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que eu queria, que era ganhar a Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Tinha o papel de fazer com que todos fossem importantes diante de uma conquista. Eu poderia falar muito facilmente: \u201cO Brasil ganhou a Copa do Mundo porque Ronaldo e Rivaldo foram os melhores\u201d. N\u00e3o. Rivaldo e Ronaldo foram os melhores em um jogo cada um. E nos outros cinco jogos? Tivemos outros melhores em campo.<\/p>\n<p>Eu tinha que fazer com que aquela divis\u00e3o de responsabilidade tivesse o mesmo peso. Que Kl\u00e9berson e Gilberto Silva tivessem o mesmo peso que Ronaldo e Rivaldo. Que Cafu e Roberto Carlos tivessem o mesmo peso que Roque J\u00fanior e L\u00facio. Fazia com que todo mundo se sentisse igual e importante naquele ambiente, independentemente de quem fosse fazer o gol ou dar o passe.<\/p>\n<p>Sab\u00edamos que quem ia fazer os gols era Ronaldo e Rivaldo. Ent\u00e3o, vamos jogar para Ronaldo e Rivaldo, sem vaidade nenhuma. Eu n\u00e3o ia ser artilheiro da Copa. Roberto Carlos n\u00e3o ia ser artilheiro da Copa. Fazia com que nosso time jogasse para eles e com que aqueles dois jogassem para o nosso time. Falava: \u201cA for\u00e7a de voc\u00eas dois est\u00e1 em n\u00f3s, e a nossa for\u00e7a s\u00e3o voc\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha vaidade naquele time. A gente dividia a responsabilidade. Sinceramente, n\u00e3o vi isso desde 2002 nas sele\u00e7\u00f5es que disputaram a Copa do Mundo. N\u00e3o vi essa divis\u00e3o de responsabilidade. N\u00e3o vi a alegria dos meninos de um jogar para o outro, de um ficar feliz com o gol, com o drible, com a conquista do outro.<\/p>\n<p>Talvez seja isso que esteja faltando na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira: o comprometimento de jogar em equipe, de jogar para a equipe, independentemente de quem vai se destacar.<\/p>\n<p>Eu falava: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o vai ser o melhor todo dia, mas \u00e9 obrigado a dar o seu melhor todo dia. Esse jogo vai ser o jogo da sua vida. Pode ser contra o advers\u00e1rio que for. Pense que \u00e9 o \u00faltimo jogo, a chance que voc\u00ea tem de chegar a uma final\u201d.<\/p>\n<p>Sempre estimulava os meninos nisso. Por isso a sele\u00e7\u00e3o foi campe\u00e3 da maneira como foi. N\u00e3o existia vaidade, n\u00e3o existia \u201ceu fiz, eu ganhei\u201d. N\u00f3s fizemos e n\u00f3s ganhamos.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 E voc\u00ea n\u00e3o viu isso em nenhuma das sele\u00e7\u00f5es que vieram depois?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Depois de 2002, at\u00e9 hoje, n\u00e3o vi em nenhuma. Comento muito isso com os meninos: \u201cO que falta \u00e9 exatamente isso. \u00c9 um jogar para o outro, ficar feliz com a conquista do outro, com o gol do outro, abra\u00e7ar o outro porque o cara deu um passe\u201d.<\/p>\n<p>Dificilmente vi isso nessas \u00faltimas sele\u00e7\u00f5es. Talvez agora, com quatro anos para trabalhar a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, Ancelotti possa trazer isso novamente, fazer com que os meninos tenham o prazer de ver a conquista do outro dentro de campo.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea acha que pode ser uma quest\u00e3o geracional, pela fama nas redes sociais, pelos contratos ainda mais milion\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Eu n\u00e3o jogaria essa desculpa nos contratos milion\u00e1rios, porque o mundo se modernizou. Todo mundo ganha de acordo com o que o per\u00edodo permite. Na nossa \u00e9poca, ganh\u00e1vamos muito bem tamb\u00e9m. Na \u00e9poca dos meninos, eles est\u00e3o ganhando muito bem. Isso n\u00e3o vou contestar jamais. Acho que cada um ganha aquilo que merece, que faz por merecer. Independentemente de estar jogando bem ou mal, \u00e9 m\u00e9rito de quem est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o vejo esse comprometimento de grupo. Quando falo comprometimento de grupo, \u00e9 jogar para o grupo, ter a no\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea est\u00e1 ali representando 220 milh\u00f5es de brasileiros. \u201cEstou representando o Brasil. N\u00e3o estou representando a minha marca pr\u00f3pria, s\u00f3 o meu patrocinador. Estou representando meu pai, minha m\u00e3e, meus filhos, meus netos, meus amigos. Estou representando o povo brasileiro.\u201d<\/p>\n<p>Isso n\u00f3s t\u00ednhamos, conseguimos filtrar naquela \u00e9poca. Hoje tudo se modernizou. Dificilmente as pessoas v\u00e3o para uma entrevista coletiva. Est\u00e3o fazendo comunicado, falando com a imprensa pelo celular. N\u00e3o t\u00eam mais esse contato direto. As cifras s\u00e3o completamente diferentes das da nossa \u00e9poca, mas s\u00e3o os per\u00edodos.<\/p>\n<p>N\u00e3o colocaria a derrota da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira na conta das redes sociais, de serem popstars ou dos contratos publicit\u00e1rios milion\u00e1rios. O que analiso \u00e9 o que podem fazer dentro de campo, o que devem fazer e o que t\u00eam que deixar fora de campo.<\/p>\n<p>Essa era a fun\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o. Eu era um elo entre jogador e treinador, jogador e imprensa, treinador e torcida, jogador e torcida. Filtrava tudo para fazer com que os meninos entrassem em campo e falava: \u201cEsquece tudo l\u00e1 fora, irm\u00e3o. Aqui voc\u00ea vai jogar futebol. Faz o que tem que fazer aqui. Porque l\u00e1 fora voc\u00ea s\u00f3 vai ganhar se estiver bem aqui. Investe em voc\u00ea aqui e depois vai desfrutar de tudo o que tem l\u00e1 fora\u201d.<\/p>\n<p>Talvez seja um pouco disso que esteja faltando, ou algu\u00e9m que fale isso para eles, algu\u00e9m que possam escutar. Mas quem vai falar? Tem que ser algu\u00e9m que realmente passou por aquilo. Algu\u00e9m que passou por Copas, ganhou e perdeu, bateu recordes, conquistou t\u00edtulos. Nosso time \u00e9 bom. O que est\u00e1 faltando \u00e9 exatamente isso, um pouco mais de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Quando uma sele\u00e7\u00e3o como a brasileira cai precocemente em uma Copa, quem precisa assumir a responsabilidade primeiro: o treinador, os jogadores mais experientes ou as lideran\u00e7as da CBF?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 N\u00f3s que entramos em campo. CBF n\u00e3o entra em campo, treinador n\u00e3o entra em campo, jornalista n\u00e3o entra em campo, parente n\u00e3o entra em campo, torcida n\u00e3o entra em campo.<\/p>\n<p>Muitas pessoas atribuem a derrota ao treinador que escalou mal, \u00e0 CBF que est\u00e1 vivendo uma crise, ao Brasil, \u00e0 fam\u00edlia. N\u00e3o. A responsabilidade dentro de campo \u00e9 nossa.<\/p>\n<p>Quando falam: \u201cO treinador tirou fulano e colocou sicrano, e n\u00e3o deu certo\u201d. S\u00e3o os melhores jogadores. Qualquer um que eu tirar e qualquer um que colocar \u00e9 o melhor. N\u00e3o existe o pior na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>Talvez um posicionamento equivocado possa atrapalhar um jogo. Talvez o treinador tenha mexido errado. Mas, mesmo o treinador mexendo errado, eu entrei em campo. Ent\u00e3o a responsabilidade \u00e9 minha.<\/p>\n<p>Independentemente de o treinador colocar fulano, sicrano ou beltrano, a responsabilidade de jogar futebol \u00e9 do jogador. O treinador pode substituir errado, pode se equivocar, mas a responsabilidade, 80%, \u00e9 nossa, porque somos n\u00f3s que entramos em campo.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Na final de 1994, quando voc\u00ea entrou no lugar de Jorginho, eu estava com minha fam\u00edlia e amigos vendo o jogo. Depois da tens\u00e3o com a sa\u00edda dele, todo mundo come\u00e7ou a gritar seu nome. Voc\u00ea tem no\u00e7\u00e3o do tamanho disso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 De verdade, Matheus, eu tenho. Talvez voc\u00eas n\u00e3o tenham no\u00e7\u00e3o do quanto treinei esperando aquele momento.<\/p>\n<p>Sempre fui muito disciplinado. Sabia que Jorginho era titular absoluto. Eu treinava para treinar o Jorginho. Treinava bem para for\u00e7\u00e1-lo a treinar bem, para ele estar bem dentro de campo. Porque, se Jorginho estivesse bem e ganhasse a Copa do Mundo, eu estaria ganhando minha primeira Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Treinei 32 dias arduamente, esperando uma oportunidade de jogar um jogo da Copa. Minha oportunidade chegou na final.<\/p>\n<p>Lembro como hoje: Jorginho colocou a m\u00e3o na coxa, Parreira virou para tr\u00e1s e falou: \u201cCafu, Jorginho colocou a m\u00e3o na coxa\u201d. Falei: \u201cEu vi, professor. Estou vendo. Estou h\u00e1 32 dias treinando, esperando uma oportunidade\u201d.<\/p>\n<p>Ele tomou um susto: \u201cCafu, voc\u00ea est\u00e1 pronto?\u201d. Falei: \u201cProfessor, tem 32 dias que estou pronto\u201d. Eu me preparei para jogar um jogo da Copa do Mundo, e esse jogo foi a final.<\/p>\n<p>O que passo nas minhas palestras para esses meninos \u00e9 exatamente isso: por que voc\u00ea vai treinar s\u00f3 se souber que vai jogar? Treine como se fosse jogar. Copa do Mundo passa muito r\u00e1pido e tudo pode acontecer em quest\u00e3o de segundos.<\/p>\n<p>Do primeiro treino at\u00e9 o final da Copa, treinei no mesmo ritmo, concentrei no mesmo ritmo. Em qualquer minuto em que me colocassem para jogar, eu estava preparado.<\/p>\n<p>Hoje talvez n\u00e3o veja esse comprometimento. Vejo assim: \u201cN\u00e3o vou jogar mesmo, fulano \u00e9 titular absoluto\u201d. \u00c9 o comprometimento de estar pronto, preparado.<\/p>\n<p>Se eles soubessem o quanto \u00e9 bom ganhar uma Copa do Mundo, iriam querer ganhar todo dia. A Copa muda a hist\u00f3ria de muita gente, muda a nossa hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria do atleta. Ele vai passar a ser campe\u00e3o do mundo. N\u00e3o existe ex-campe\u00e3o. \u00c9 campe\u00e3o para sempre.<\/p>\n<p>Quando era capit\u00e3o, eu estimulava todo mundo nisso: ganhar, ganhar, ganhar. Esteja preparado. Talvez o treinador fale para voc\u00ea jogar hoje, e voc\u00ea est\u00e1 treinando mole?<\/p>\n<p>Um erro de cinco minutos numa Copa do Mundo joga fora o trabalho de quatro anos. \u00c9 injusto. Por quatro anos v\u00e3o falar que voc\u00ea n\u00e3o presta, por causa de cinco minutos. Olha o tamanho da responsabilidade que carregamos. Eu tinha no\u00e7\u00e3o dessa responsabilidade e sempre passava isso para os meninos.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Rom\u00e1rio contou que um dos gols mais feitos que perdeu na carreira foi justamente depois de um passe seu naquela final de 1994. Como voc\u00ea se lembra daquele lance?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Foi s\u00f3 na final da Copa do Mundo, contra a It\u00e1lia. Lembro quando a bola foi colocada na diagonal para mim. Entrei fazendo o fac\u00e3o pelo meio. Quando vi aquele espa\u00e7o entre o goleiro e o zagueiro, falei: \u201cVou colocar ali, porque com certeza Rom\u00e1rio vai chegar\u201d.<\/p>\n<p>Quando cruzei e vi Rom\u00e1rio dando o carrinho, j\u00e1 estava at\u00e9 comemorando. \u201cEle vai chegar, ele vai chegar.\u201d Ele chegou com a perna contr\u00e1ria. Se chega com a outra perna, fazia o gol.<\/p>\n<p>Ele falou recentemente: \u201cO gol mais feito que perdi foi esse na Copa do Mundo de 1994\u201d. Eu iria me consagrar, n\u00e3o \u00e9? Primeira Copa, tocando para Rom\u00e1rio, e Rom\u00e1rio fazendo o gol com passe do Cafu.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 estar preparado. O que falo para todo mundo \u00e9: esteja preparado para as oportunidades. O que a gente n\u00e3o pode, quando se fala de Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, \u00e9 n\u00e3o estar preparado.<\/p>\n<p>\u00c9 estar ligado no que est\u00e1 acontecendo. Se o treinador olhar para voc\u00ea: \u201cEstou pronto\u201d. \u00c9 esse comprometimento de que falo, independentemente de quem vai jogar. \u00c9 a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Quando perde, perde todo mundo.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Carlo Ancelotti decidiu iniciar uma renova\u00e7\u00e3o da Sele\u00e7\u00e3o depois da Copa. Como fazer uma mudan\u00e7a de gera\u00e7\u00e3o sem perder refer\u00eancias dentro do vesti\u00e1rio, especialmente em um grupo que n\u00e3o teve a experi\u00eancia de ganhar uma Copa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 A mudan\u00e7a \u00e9 inerente ao momento, sem sombra de d\u00favida. Terminou um ciclo, come\u00e7a outro. Ancelotti pegou um ciclo vicioso, de quase 12 anos com o mesmo time jogando junto. Pegou esse ciclo com um ano, um time quase classificado para a Copa, sem ter tempo de treinar, de dar um padr\u00e3o de jogo.<\/p>\n<p>Trabalhei com Ancelotti cinco anos. Ancelotti \u00e9 o dia a dia, o treinamento, o tete a tete, a conversa, tocar no ombro, mostrar, explicar, falar.<\/p>\n<p>Agora ele vai ter um ciclo novo. Tem quatro anos para montar uma sele\u00e7\u00e3o, dar um padr\u00e3o, criar uma identidade. Fazer com que os nossos jovens, quando a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira for jogar, j\u00e1 tenham a sele\u00e7\u00e3o em mente, tanto os titulares como os reservas.<\/p>\n<p>O que precisa priorizar agora \u00e9 montar uma base, um time. Falar: \u201cMeu time vai partir dessa base\u201d. A partir da\u00ed, voc\u00ea come\u00e7a a encaixar. Esse machucou, traz outro; esse tomou cart\u00e3o amarelo\u2026 Mas precisa ter uma base.<\/p>\n<p>Ele colocou alguns jogadores experientes, de outras Copas, para come\u00e7ar esse time. Precisa de jogador cascudo, experiente, que tomou pancada, que j\u00e1 disputou uma Copa do Mundo. L\u00edderes de verdade, para deixar esses meninos tranquilos e fazer com que cheguem a um ambiente bom.<\/p>\n<p>Vai ter quatro anos para montar esse ambiente e a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Vamos ter eliminat\u00f3rias muito tranquilas, com o Brasil praticamente classificado para a Copa. Ele vai precisar treinar o time e criar uma identidade, para que o Brasil decore esses jogadores.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea, que conhece Ancelotti, est\u00e1 esperan\u00e7oso para esse novo ciclo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Estou esperan\u00e7os\u00edssimo. Tenho certeza de que vai ser um ciclo completamente diferente, porque vai come\u00e7ar do zero. Ele vai come\u00e7ar um trabalho que ser\u00e1 dele. Os meninos v\u00e3o entender o que ele quer, e isso \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p>Volto a falar: ele pegou um ciclo vicioso, de quase 12 anos jogando junto. \u00c9 dif\u00edcil quebrar isso. Ele tentou, mas o tempo n\u00e3o foi h\u00e1bil. Agora tem quatro anos para fazer isso.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 No ano passado, voc\u00ea dizia que Neymar seria uma pe\u00e7a fundamental para o Brasil. Ele foi \u00e0 Copa, e agora Ancelotti anunciou o encerramento do ciclo de alguns veteranos. Que balan\u00e7o voc\u00ea faz da trajet\u00f3ria de Neymar na Sele\u00e7\u00e3o e do peso colocado sobre ele durante tantos anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Falar de Neymar na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, para mim, \u00e9 muito f\u00e1cil. Os n\u00fameros s\u00e3o impressionantes, falam sozinhos. Neymar bateu quase todos os recordes da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira em termos de jogos, de n\u00fameros, de conquistas. Infelizmente n\u00e3o ganhou uma Copa do Mundo, mas, fora isso, bateu recordes dos maiores jogadores da hist\u00f3ria do futebol mundial.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem como contestar os n\u00fameros de Neymar na Sele\u00e7\u00e3o. Era uma pe\u00e7a fundamental, at\u00e9 o momento em que se machucou. Se n\u00e3o se machuca e vai 100% para a Copa do Mundo, faria a diferen\u00e7a. Porque Neymar faz a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Ele ficou muitos anos sozinho. Falei isso e n\u00e3o tenho vergonha nem medo de falar. Durante 15 anos, ficou sozinho na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, tendo que fazer tudo: bater escanteio, falta, p\u00eanalti, tiro de meta, brigar com o juiz, falar com o juiz, discutir com o treinador.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha ningu\u00e9m que pudesse proteg\u00ea-lo. Quando falei que Neymar estava sozinho e que n\u00e3o podia ser o capit\u00e3o da Sele\u00e7\u00e3o, falei nesse aspecto: n\u00f3s t\u00ednhamos que proteger Neymar. N\u00e3o t\u00ednhamos que deix\u00e1-lo ser a linha de frente. \u00c9 o nosso maior craque, nosso maior \u00eddolo, nossa maior estrela.<\/p>\n<p>Era o que fal\u00e1vamos para Ronaldinho: \u201cEsquece juiz, torcida, todo mundo. Voc\u00ea vai se divertir e n\u00f3s vamos te proteger\u201d. Era o que eu pleiteava para Neymar. Esse menino tinha que ser protegido.<\/p>\n<p>Em todas as sele\u00e7\u00f5es em que joguei, quando n\u00e3o era titular, como em 1994, era protegido pelos mais velhos. Quando virei capit\u00e3o, falei: \u201cMe protegeram quando fui para a Sele\u00e7\u00e3o. Agora preciso proteger esses meninos\u201d.<\/p>\n<p>Protegemos Ronaldinho, Kak\u00e1, Rivaldo, Ronaldo. Esses caras precisavam estar livres, se divertir. Neymar tinha que pensar s\u00f3 em jogar futebol, dar chap\u00e9u, dar caneta, fazer gol de placa, fazer gola\u00e7o, bater recorde. E n\u00f3s t\u00ednhamos que proteg\u00ea-lo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que veio numa gera\u00e7\u00e3o em que ningu\u00e9m o protegia. Ele queria ser o protetor, mas precis\u00e1vamos dele de outra forma. Como precis\u00e1vamos de Ronaldinho, Ronaldo, Rivaldo, Kak\u00e1: \u201cVai se divertir, vai jogar, vai brincar. Deixa que a gente segura a bronca aqui nas pauladas\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o vi ningu\u00e9m que protegesse Neymar da maneira como ele tinha que ser protegido.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Quando voc\u00ea critica a falta de comprometimento dessa gera\u00e7\u00e3o, Neymar fica fora dessa avalia\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea sentia comprometimento nele?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Sempre teve. Em todos os jogos, se voc\u00ea pegar o que Neymar fez na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, ele sempre se comprometeu com a Sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes queria at\u00e9 dar algo mais, mas via que n\u00e3o dava. Em um momento, falava: \u201cCaramba, o que eu fa\u00e7o?\u201d. Tinha um comprometimento muito forte. Tanto \u00e9 que entrou contra a Noruega com 20 minutos, foi, buscou, tentou, fez o que podia fazer. Os n\u00fameros de Neymar s\u00e3o indiscut\u00edveis quando se fala de Sele\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea costuma dizer que existem dois tipos de l\u00edder: aquele que \u00e9 temido e aquele que \u00e9 respeitado. Como um jogador conquista respeito em um vesti\u00e1rio da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, onde praticamente todos chegam como estrelas de seus clubes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Exemplo. N\u00e3o \u00e9 o cargo que faz o l\u00edder, \u00e9 o exemplo. O meu era chegar cedo e sair tarde, ver como todo mundo estava: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 bem? N\u00e3o est\u00e1 bem? Vamos treinar?\u201d. Ser o primeiro a puxar a fila, o \u00faltimo a sair do vesti\u00e1rio, o primeiro a chegar ao almo\u00e7o e o \u00faltimo a sair. Conversar e falar com todo mundo.<\/p>\n<p>Nunca fui mais t\u00e9cnico do que Ronaldo, Kak\u00e1, Ronaldinho Ga\u00facho ou Neymar. Mas \u00e9 o exemplo de lideran\u00e7a, de disciplina, de treinamento, de comprometimento.<\/p>\n<p>Se era para treinar \u00e0s nove, chegava \u00e0s oito. No primeiro dia n\u00e3o tinha ningu\u00e9m. No segundo, j\u00e1 tinha dois. No terceiro, tr\u00eas. No quarto, quatro. Esse \u00e9 o exemplo, o l\u00edder respeitado.<\/p>\n<p>O l\u00edder n\u00e3o tem que ser temido, tem que ser respeitado. Quando as pessoas fazem as coisas pelo l\u00edder, \u00e9 porque ele \u00e9 respeitado. V\u00e3o com voc\u00ea at\u00e9 o final.<\/p>\n<p>Eu nunca falava: \u201cFaz isso\u201d. Falava: \u201cAcho que, se fizermos dessa maneira, talvez possa melhorar. O que voc\u00ea acha?\u201d. Divis\u00e3o de responsabilidade. \u201cSe fizermos dessa maneira, acho que vai dar certo. Tenta. Se n\u00e3o der, a gente tenta de outra forma.\u201d<\/p>\n<p>Nunca coloquei o dedo na cara de um cara e falei: \u201cFaz isso\u201d. \u00c9 o l\u00edder que n\u00e3o te cobra publicamente, cobra individualmente, mas publicamente vai te elogiar. Porque o erro \u00e9 inerente a qualquer um. Errou? \u201cVamos embora. Na pr\u00f3xima a gente acerta.\u201d Depois: \u201cN\u00e3o vamos cometer mais esse erro, porque pode prejudicar\u201d.<\/p>\n<p>Sempre tive o respeito desses meninos. Para disputar quatro Copas do Mundo, voc\u00ea tem que abdicar de muitas coisas. Abdiquei de tudo em prol daquilo que queria, que era estar na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Treinava, descansava, concentrava. Era minha vida.<\/p>\n<p>Falava para eles: \u201cO melhor investimento que voc\u00eas fazem \u00e9 em voc\u00eas mesmos, no seu corpo. At\u00e9 onde voc\u00ea quer chegar? At\u00e9 quando quer jogar?\u201d. Quer jogar at\u00e9 os 30? Vai se dedicar para jogar at\u00e9 os 30. Quer jogar at\u00e9 os 40? Vai fazer dobrado. Est\u00e1 disposto a abrir m\u00e3o disso tudo?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m decide por voc\u00ea. A decis\u00e3o de parar ou n\u00e3o \u00e9 sua. Enquanto achar que est\u00e1 comprometido, se dedicando, ajudando o seu time, continue.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Est\u00e1 faltando um capit\u00e3o na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira que exer\u00e7a essa lideran\u00e7a que voc\u00ea descreve?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Est\u00e1. Marquinhos \u00e9 um grande capit\u00e3o, foi o que ficou mais tempo na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. Talvez falte esse passinho de assumir essa responsabilidade realmente como l\u00edder.<\/p>\n<p>Ele tem tudo para fazer isso. J\u00e1 est\u00e1 indo para mais uma Copa, \u00e9 um jogador muito vitorioso no Paris Saint-Germain. Assumir essa postura, falar: \u201cSou o capit\u00e3o, sou o l\u00edder e sou o exemplo\u201d.<\/p>\n<p>Chamar os meninos e falar: \u201cDe agora em diante mudou. A responsabilidade \u00e9 diferente. O grupo vai ser dessa forma. Mister, conta comigo para o que der e vier. Vamos estar juntos nessa jornada\u201d.<\/p>\n<p>Quando perde, perde todo mundo. O capit\u00e3o \u00e9 uma pe\u00e7a fundamental em um grupo, principalmente na sele\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 pouco tempo para estar junto.<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 lidando com os melhores nos seus clubes, estrelas, jogadores que, quando saem da sele\u00e7\u00e3o e v\u00e3o para os clubes, s\u00e3o reis. De repente, chegam \u00e0 Sele\u00e7\u00e3o Brasileira e n\u00e3o jogam.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem que ver que os outros est\u00e3o no mesmo n\u00edvel. Eu conseguia fazer com que todo mundo se sentisse importante, sabendo da responsabilidade. \u201cVai jogar esse, mas, se voc\u00ea estiver pronto e precisar, est\u00e1 no mesmo n\u00edvel. \u00c9 uma decis\u00e3o do treinador, s\u00f3 podem jogar 11.\u201d<\/p>\n<p>Talvez falte isso para o capit\u00e3o: assumir realmente essa responsabilidade.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea saiu do Jardim Irene, foi dispensado v\u00e1rias vezes no in\u00edcio da carreira e acabou levantando a Copa do Mundo como capit\u00e3o. Quando olha para um menino de periferia hoje, o caminho at\u00e9 o futebol profissional ficou mais acess\u00edvel ou mais dif\u00edcil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Na minha avalia\u00e7\u00e3o, ficou bem mais f\u00e1cil do que na minha \u00e9poca. Do Jardim Irene at\u00e9 o meu primeiro contrato profissional, foram nove tentativas, nove n\u00e3os, nove peneiras. Fui recusado nove vezes.<\/p>\n<p>Na nossa \u00e9poca, achava que esses n\u00e3os eram normais, que, para se transformar em jogador de futebol, tinha que passar por tudo isso.<\/p>\n<p>Essa gera\u00e7\u00e3o, no primeiro n\u00e3o, desiste. No primeiro n\u00e3o, chora. No primeiro n\u00e3o, vai fazer um v\u00eddeo falando que o treinador n\u00e3o gosta dele. Vai para as redes sociais, a popula\u00e7\u00e3o se comove, esse menino vai estar empregado, mas talvez n\u00e3o v\u00e1 ser um campe\u00e3o. Porque crian\u00e7a que n\u00e3o se frustra quando \u00e9 pequena vira adulto frustrado.<\/p>\n<p>Quando chegava em casa e falava: \u201cPai, fui mandado embora\u201d, meu pai dizia: \u201cEssa barreira voc\u00ea vai superar\u201d. De novo: \u201cMeu filho, essa barreira s\u00f3 voc\u00ea pode superar\u201d.<\/p>\n<p>Meu pai j\u00e1 estava me preparando para o futuro, sabendo que n\u00e3o ia ser f\u00e1cil. Com 12 anos, estava me preparando para os n\u00e3os que poderia tomar l\u00e1 na frente.<\/p>\n<p>Por isso, quando tenho uma derrota ou uma conquista, n\u00e3o me empolgo com a conquista, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me abalo com a derrota. Sei que isso pode acontecer a qualquer momento, por causa daqueles n\u00e3os que tomei no come\u00e7o, quando tinha tudo para parar de jogar futebol e seguir outra vida.<\/p>\n<p>Quando morava no Jardim Irene, acordava \u00e0s quatro da manh\u00e3, pegava o primeiro \u00f4nibus \u00e0s cinco e depois pegava trem para chegar a Itaquaquecetuba e treinar \u00e0s nove. Era sofrido, mas tinha certeza de que aquele era o caminho para chegar aonde cheguei: ser o \u00fanico jogador da hist\u00f3ria a disputar tr\u00eas finais consecutivas de Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Talvez, se n\u00e3o tivesse passado por esses obst\u00e1culos no come\u00e7o, n\u00e3o teria estrutura suficiente para aguentar os n\u00e3os. Perder uma Copa em 1998, seguir em 2002, ser campe\u00e3o novamente. Perder em 2006, continuar jogando e conquistar o t\u00edtulo com o Milan.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil, mas \u00e9 aquilo que voc\u00ea quer. E o que eu queria era ser jogador de futebol.<\/p>\n<p>Talvez a maioria desses garotos n\u00e3o suportasse o que passamos para nos transformar em jogadores. Hoje tem scout, celular com todos os seus dados. N\u00f3s t\u00ednhamos que enfrentar uma peneira com seis times de garotos e torcer para o treinador estar olhando para voc\u00ea. Era mais dif\u00edcil. Talvez por isso demos tanto valor \u00e0 nossa carreira, \u00e0 nossa profiss\u00e3o e \u00e0quilo que conquistamos.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea costuma dizer que a palavra mais importante \u00e9 \u201coportunidade\u201d e que seus projetos n\u00e3o pretendiam apenas formar atletas, mas formar cidad\u00e3os. O que o trabalho social lhe ensinou sobre o Brasil que o futebol profissional n\u00e3o havia mostrado? Aquela educa\u00e7\u00e3o do seu pai \u00e9 o que tenta transmitir \u00e0s crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Exatamente isso. O que quero passar \u00e9 que v\u00e3o receber n\u00e3os, v\u00e3o ter obst\u00e1culos e barreiras, mas s\u00f3 eles podem super\u00e1-los.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea supera a barreira do terceiro setor, no social? Dando oportunidade. Bato muito nessa tecla, porque a maior mentira do mundo \u00e9 que nas favelas, nas periferias, nas comunidades, nos bairros s\u00f3 existe gente ruim. A maior verdade \u00e9 que falta oportunidade.<\/p>\n<p>Faltava oportunidade na minha \u00e9poca. Se eu tivesse uma Funda\u00e7\u00e3o Cafu, como montei depois que me transformei em atleta, talvez n\u00e3o tivesse perdido tantos amigos da maneira como perdi. Talvez outras crian\u00e7as pudessem ter se formado, n\u00e3o como jogadores de futebol, mas como jornalistas, c\u00e2meras, assistentes, advogados, t\u00e9cnicos de som.<\/p>\n<p>Nenhuma m\u00e3e, nenhum pai sai de casa para trabalhar e fala: \u201cMeu filho, vai fazer coisa ruim na rua\u201d. Falam: \u201cVai para a escola, vai trabalhar, faz coisa boa\u201d. Mas, quando o menino v\u00ea que n\u00e3o existe essa coisa boa, vai procurar o caminho ruim.<\/p>\n<p>Quando montei a Funda\u00e7\u00e3o Cafu no Jardim Irene, um projeto que tive durante 16 anos, n\u00e3o queria formar jogadores de futebol. Queria formar cidad\u00e3os. Atrav\u00e9s de cursos profissionalizantes, refor\u00e7o escolar, canto, dan\u00e7a, coral, jud\u00f4, karat\u00ea, capoeira, inform\u00e1tica, corte e costura, artesanato, ingl\u00eas, cabeleireiro.<\/p>\n<p>Voc\u00ea faz com que a crian\u00e7a tenha op\u00e7\u00f5es. Era o que queria para as crian\u00e7as do Jardim Irene: oportunidade dentro dessa sociedade maluca em que vivemos.<\/p>\n<p>Quando d\u00e1 a uma crian\u00e7a a oportunidade de pegar um caderno, um l\u00e1pis, um pincel e come\u00e7ar a pintar, voc\u00ea percebe: \u201cEla tem um dom\u201d. Come\u00e7a a desenvolver esse dom. Mas voc\u00ea j\u00e1 deu uma oportunidade.<\/p>\n<p>Tive a primeira oportunidade de fazer meu teste no S\u00e3o Paulo e abracei. Falaram: \u201cVoc\u00ea tem 30 dias para fazer o teste\u201d. Lembrei das barreiras do meu pai: \u201cS\u00f3 voc\u00ea pode superar\u201d. Ele falava: \u201cN\u00e3o posso entrar em campo por voc\u00ea. S\u00f3 posso te levar at\u00e9 a beira da linha. Dali para dentro \u00e9 voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea tinha quantos anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Tinha 13 anos. J\u00e1 sabia que tinha que superar aquelas barreiras. N\u00e3o tive tantas oportunidades. Quando montei os projetos sociais, foi para mostrar que nas periferias, nos bairros, nas favelas e nas comunidades tem que ter oportunidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o futebol, mas usei a minha ferramenta, o esporte, para chamar essas crian\u00e7as. O esporte \u00e9 uma das maiores ferramentas de inclus\u00e3o social que existem.<\/p>\n<p>Depois fomos para o Cafuzinhos do Sert\u00e3o, um trabalho com crian\u00e7as que jogavam descal\u00e7as no meio de cacos de vidro, espinhos, num campo de terra. Fui jogar descal\u00e7o com esses meninos quando me apresentaram o projeto.<\/p>\n<p>Quando cheguei, um menino olhou para mim e falou: \u201cVoc\u00ea \u00e9 de verdade? \u00c9 o Cafu mesmo?\u201d. Falei: \u201cSou\u201d. \u201cMas est\u00e1 fazendo o que aqui?\u201d \u201cVim aqui para te ver.\u201d \u201cMas ningu\u00e9m nunca olhou para n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Falei: \u201cDe agora em diante vai olhar, porque estou olhando para voc\u00eas. Rodei 420 quil\u00f4metros para vir te ver, porque me preocupo com voc\u00ea. Tem gente que se preocupa com voc\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Depois de uma semana, todo mundo j\u00e1 tinha t\u00eanis, cesta b\u00e1sica. As crian\u00e7as passaram a ter qualidade de vida, esperan\u00e7a. Quando fazemos um projeto social, alimentamos a esperan\u00e7a e o sonho dessas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Todos t\u00eam o sonho de ser algu\u00e9m na vida. Voc\u00ea fomenta esse sonho dando oportunidade, porque n\u00e3o adianta fomentar o sonho de um garoto se n\u00e3o der oportunidade. Vai continuar sentado, sonhando pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Depois fomos para os projetos em Mo\u00e7ambique, com crian\u00e7as que vivem com HIV. Contra\u00edram o v\u00edrus ainda na barriga da m\u00e3e. Tomavam o coquetel na segunda-feira, por exemplo, e s\u00f3 iam se alimentar na quinta. Ficavam tr\u00eas dias sem comer.<\/p>\n<p>Apresentaram o projeto, falei com algumas pessoas e com pessoas de l\u00e1. Agora essas crian\u00e7as t\u00eam tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es por dia, todos os dias. Atrav\u00e9s de uma simples palavra, conseguimos mudar a vida de algumas pessoas. Foi falar: \u201cMe ajuda a alimentar essas crian\u00e7as. Olha para elas, d\u00e1 oportunidade\u201d.<\/p>\n<p>Tem tamb\u00e9m o projeto dos po\u00e7os. Levamos \u00e1gua para onde n\u00e3o tinha \u00e1gua pot\u00e1vel. Constru\u00edmos 150 po\u00e7os e vamos construir mais 150, tudo atrav\u00e9s das pessoas que est\u00e3o l\u00e1.<\/p>\n<p>Cedemos a nossa imagem para que pudessem trazer patrocinadores e fazer tudo l\u00e1. Uma palavra de incentivo muda uma pessoa, mas esse incentivo tem que vir com oportunidade. E qualquer um pode dar uma oportunidade, uma palavra de incentivo. Mas \u00e9 fazer, n\u00e3o esperar os outros.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Qual \u00e9 hoje o principal desafio dos projetos sociais voltados para crian\u00e7as e adolescentes: conseguir recursos, manter os jovens envolvidos, oferecer educa\u00e7\u00e3o ou criar perspectivas reais de futuro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Criar perspectivas reais de futuro, mas isso vem atrav\u00e9s de verba. Se n\u00e3o tiver verba para manter um instituto, n\u00e3o tem como fazer isso, porque o instituto custa.<\/p>\n<p>Tem projetos incentivados, projetos de lei de incentivo, v\u00e1rios projetos. Mas o maior desafio das institui\u00e7\u00f5es s\u00e9rias s\u00e3o os recursos. Conscientizar as pessoas sobre as doa\u00e7\u00f5es pela Lei de Incentivo ao Esporte e o imposto de renda. O desafio maior \u00e9 recurso.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea diz que o futebol \u00e9 uma das maiores ferramentas de inclus\u00e3o social que existem. Num pa\u00eds ainda t\u00e3o desigual como o Brasil, ele continua cumprindo esse papel ou deixou de ser para muitos jovens a porta de ascens\u00e3o que foi para a sua gera\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Continua sendo. Vejo nos eventos a que vou. O que me leva a esses eventos, a essas crian\u00e7as, \u00e9 o futebol, essa ferramenta de inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O esporte \u00e9 o lugar onde voc\u00ea abra\u00e7a uma pessoa que nunca viu na vida. Brinda com uma pessoa no est\u00e1dio que nem sabe de onde \u00e9. \u00c9 o lugar onde o preto fala com o branco, o rico com o pobre, o patr\u00e3o com o empregado. Todo mundo fala com todo mundo. \u00c9 o momento em que o pai discute com o filho e o filho pode discutir com o pai.<\/p>\n<p>Temos que usar essa ferramenta para inclus\u00e3o. O esporte tira as crian\u00e7as da rua, principalmente o futebol. T\u00ednhamos que usar essas institui\u00e7\u00f5es que trabalham com esporte para fazer com que as crian\u00e7as se incluam na sociedade, tendo direito \u00e0 igualdade.<\/p>\n<p>O esporte d\u00e1 disciplina, cultura, educa\u00e7\u00e3o, socializa\u00e7\u00e3o. Tudo o que tenho \u00e9 gra\u00e7as ao esporte. Conhe\u00e7o quase todos os pa\u00edses do mundo, idiomas e culturas diferentes.<\/p>\n<p>Quando vejo coisas ruins acontecendo no esporte, fico triste. \u00c9 um momento de socializa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea d\u00e1 um carrinho no cara, pega na m\u00e3o dele: \u201cDesculpa, \u00e9 meu trabalho\u201d. O que n\u00e3o vejo hoje \u00e9 as pessoas pedirem desculpas umas \u00e0s outras.<\/p>\n<p>Trabalhamos com as crian\u00e7as para que socializem de maneira educada, respeitando o advers\u00e1rio, aceitando a derrota, porque ela vai acontecer. N\u00e3o vamos viver s\u00f3 de vit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Mesmo na derrota, voc\u00ea vai l\u00e1 e aperta a m\u00e3o do seu companheiro, porque hoje ele foi melhor do que voc\u00ea, mas amanh\u00e3 voc\u00ea pode ser melhor do que ele. Hoje ele ganhou do seu time, amanh\u00e3 seu time pode ganhar do dele.<\/p>\n<p>\u00c9 o momento de respeitar, de saber reconhecer a vit\u00f3ria do advers\u00e1rio. Sempre soube reconhecer essas vit\u00f3rias. Quando perdia, falava: \u201cParab\u00e9ns, voc\u00eas foram melhores do que a gente\u201d.<\/p>\n<p>Em 1998, quando todo mundo inventava desculpa, eu falava: \u201cE a Fran\u00e7a?\u201d. A Fran\u00e7a foi melhor do que a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. M\u00e9rito da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea falou isso para eles dentro de campo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Falei. M\u00e9rito da Fran\u00e7a, que conseguiu ganhar do nosso time. \u201cN\u00f3s somos melhores do que eles.\u201d Podemos at\u00e9 ser, mas hoje n\u00e3o fomos. Hoje foram eles.<\/p>\n<p>Nem todo dia o melhor vai ganhar. Como diz nosso glorioso Parreira, o futebol n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia exata. Voc\u00ea n\u00e3o vai ganhar todo dia, \u00e0s vezes mesmo sendo melhor. Se fosse assim, a sele\u00e7\u00e3o de 1982 ganharia a Copa do Mundo com o p\u00e9 nas costas.<\/p>\n<p>N\u00f3s, brasileiros, n\u00e3o temos tanto essa cultura de parabenizar o advers\u00e1rio por um feito conquistado. \u201cMas, se fizer isso, e a torcida?\u201d Tenho que reconhecer que o meu advers\u00e1rio foi melhor do que eu naquele momento. Ponto.<\/p>\n<p><strong>Coluna \u2013 Voc\u00ea achou que a Noruega foi melhor do que o Brasil naquele jogo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cafu<\/strong> \u2013 Naquele jogo, foi. A Noruega vai ser melhor do que o Brasil sempre? N\u00e3o. Mas naquele jogo foi. No jogo em que tinha que ser, foi melhor do que a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>O Brasil chutou uma bola na trave, o goleiro fez uma defesa, mas a Noruega tamb\u00e9m teve as chances dela. Foi melhor. Ponto final. M\u00e9rito do advers\u00e1rio. \u201cO Brasil n\u00e3o jogou nada.\u201d Porque o advers\u00e1rio jogou.<\/p>\n<p>Temos que voltar a essa cultura de parabenizar o advers\u00e1rio, as pessoas, por um feito conquistado. N\u00e3o vamos ganhar sempre. Vou apertar a m\u00e3o do meu amigo s\u00f3 quando ganhar?<\/p>\n<p>Foi isso que meu pai me ensinou quando era pequeno. Mesmo quando n\u00e3o deu certo: \u201cValeu, obrigado. Vamos embora. Na pr\u00f3xima voc\u00ea consegue\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/colunas\/matheus-leitao\/cafu-defende-neymar-cobra-a-selecao-e-relembra-a-conquista-do-penta\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 imagens que ficam na mem\u00f3ria de um pa\u00eds. Cafu levantando a ta\u00e7a do pentacampeonato \u00e9 uma delas. Naquele gesto, um menino do Jardim Irene, na periferia de S\u00e3o Paulo, erguia o sonho de milh\u00f5es de brasileiros. Antes de chegar ali, ouviu muitas vezes que n\u00e3o servia. Voltou, tentou de novo, conquistou seu lugar. 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