{"id":34105,"date":"2026-11-01T10:04:24","date_gmt":"2026-11-01T13:04:24","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalcandango.com.br\/?p=34105"},"modified":"2026-11-01T10:04:24","modified_gmt":"2026-11-01T13:04:24","slug":"a-america-latina-partida-ao-meio-por-gaudencio-torquato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalcandango.com.br\/?p=34105","title":{"rendered":"A Am\u00e9rica Latina partida ao meio (por Gaud\u00eancio Torquato)"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>A Am\u00e9rica Latina transformou-se em um imenso tabuleiro ideol\u00f3gico, no qual as pe\u00e7as se distribuem entre os campos da esquerda e da direita. O centro pol\u00edtico, que durante d\u00e9cadas abrigou partidos moderados, coaliz\u00f5es pragm\u00e1ticas e projetos de concilia\u00e7\u00e3o, perde espa\u00e7o diante da radicaliza\u00e7\u00e3o dos discursos. Com diferen\u00e7as de intensidade e peculiaridades nacionais, o continente parece caminhar sobre uma corda esticada entre dois polos. O equil\u00edbrio tornou-se exce\u00e7\u00e3o. A confronta\u00e7\u00e3o, regra.<\/p>\n<p>Suriname, Belize e Rep\u00fablica Dominicana podem ser ainda apontados como exemplos de sistemas pol\u00edticos em que sobrevivem espa\u00e7os de maior pragmatismo centrista. Mesmo nesses pa\u00edses, por\u00e9m, as classifica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas exigem cautela. No restante da regi\u00e3o, a disputa entre for\u00e7as de esquerda e direita ocupa o centro da cena, embora nem todos os governos possam ser acomodados rigorosamente nessas duas gavetas.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno n\u00e3o nasceu ontem. Suas ra\u00edzes mergulham na hist\u00f3ria de uma regi\u00e3o marcada por desigualdades sociais, concentra\u00e7\u00e3o de renda, instabilidade institucional, autoritarismo e promessas de reden\u00e7\u00e3o popular. Durante o s\u00e9culo XX, a Am\u00e9rica Latina experimentou ditaduras militares, revolu\u00e7\u00f5es socialistas, experi\u00eancias nacionalistas, governos liberais e movimentos populistas. Mudaram os protagonistas, mas permaneceu a dificuldade de construir consensos duradouros.<\/p>\n<p>A chamada onda rosa, que ganhou for\u00e7a no in\u00edcio deste s\u00e9culo, levou ao poder lideran\u00e7as identificadas com a esquerda. Hugo Ch\u00e1vez, na Venezuela, Lula, no Brasil, N\u00e9stor Kirchner, na Argentina, Evo Morales, na Bol\u00edvia, e Rafael Correa, no Equador, representaram, com estilos distintos, a ascens\u00e3o de projetos que prometiam reduzir desigualdades e ampliar a presen\u00e7a do Estado. A mar\u00e9 avan\u00e7ou sobre um continente cansado das crises econ\u00f4micas e das receitas de austeridade.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029Va9kFgRId7nRaEwtHh1m\" class=\"flex justify-center items-center gap-3 px-3 py-2.5 bg-green-500 text-white! no-underline! font-bold rounded-full my-4\"><span class=\"inline-flex gap-3 items-center max-w-10\/12 text-sm leading-4.5 font-semibold font-sans tracking-tighter whitespace-pre-line md:whitespace-normal xs:max-w-9\/12 md:text-lg md:max-w-full\"><svg width=\"40\" height=\"40\" viewbox=\"0 0 24 24\" fill=\"currentColor\" aria-hidden=\"true\" class=\"shrink-0\"><path d=\"M17.472 14.382c-.297-.149-1.758-.867-2.03-.967-.273-.099-.471-.148-.67.15-.197.297-.767.966-.94 1.164-.173.199-.347.223-.644.075-.297-.15-1.255-.463-2.39-1.475-.883-.788-1.48-1.761-1.653-2.059-.173-.297-.018-.458.13-.606.134-.133.298-.347.446-.52.149-.174.198-.298.298-.497.099-.198.05-.371-.025-.52-.075-.149-.669-1.612-.916-2.207-.242-.579-.487-.5-.669-.51-.173-.008-.371-.01-.57-.01-.198 0-.52.074-.792.372-.272.297-1.04 1.016-1.04 2.479 0 1.462 1.065 2.875 1.213 3.074.149.198 2.096 3.2 5.077 4.487.709.306 1.262.489 1.694.625.712.227 1.36.195 1.871.118.571-.085 1.758-.719 2.006-1.413.248-.694.248-1.289.173-1.413-.074-.124-.272-.198-.57-.347m-5.421 7.403h-.004a9.87 9.87 0 01-5.031-1.378l-.361-.214-3.741.982.998-3.648-.235-.374a9.86 9.86 0 01-1.51-5.26c.001-5.45 4.436-9.884 9.888-9.884 2.64 0 5.122 1.03 6.988 2.898a9.825 9.825 0 012.893 6.994c-.003 5.45-4.437 9.884-9.885 9.884m8.413-18.297A11.815 11.815 0 0012.05 0C5.495 0 .16 5.335.157 11.892c0 2.096.547 4.142 1.588 5.945L.057 24l6.305-1.654a11.882 11.882 0 005.683 1.448h.005c6.554 0 11.890-5.335 11.893-11.893A11.821 11.821 0 0020.465 3.488\"\/><\/svg>Entre no canal de WhatsApp <!-- --><br \/>\n<!-- -->do<!-- --> <!-- -->Metr\u00f3poles<\/span><\/a><\/p>\n<p>O movimento encontrou resist\u00eancia. A direita reorganizou suas for\u00e7as, incorporou novas bandeiras e passou a disputar o eleitorado com uma linguagem mais agressiva. Seguran\u00e7a p\u00fablica, combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, valores conservadores, liberdade econ\u00f4mica e rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s elites pol\u00edticas tradicionais tornaram-se instrumentos de mobiliza\u00e7\u00e3o. O liberalismo econ\u00f4mico passou a conviver, em determinados governos, com o conservadorismo cultural e o personalismo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A Argentina de Javier Milei tornou-se s\u00edmbolo dessa rea\u00e7\u00e3o. Seu discurso contra a classe pol\u00edtica tradicional e a interven\u00e7\u00e3o estatal encontrou resson\u00e2ncia numa sociedade castigada pela infla\u00e7\u00e3o e pela perda de poder aquisitivo. Em El Salvador, Nayib Bukele construiu sua popularidade sobre a promessa de seguran\u00e7a, acompanhada de severos questionamentos sobre garantias democr\u00e1ticas. S\u00e3o experi\u00eancias diferentes, mas reveladoras da for\u00e7a de lideran\u00e7as que desafiam os padr\u00f5es tradicionais da representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do outro lado, M\u00e9xico, Col\u00f4mbia e Uruguai ilustram a presen\u00e7a de projetos de esquerda com hist\u00f3rias e caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. Cuba e Nicar\u00e1gua, por sua vez, demonstram como a perman\u00eancia de regimes autorit\u00e1rios n\u00e3o pode ser confundida com a competi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica entre correntes ideol\u00f3gicas. A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental: esquerda e direita s\u00e3o categorias pol\u00edticas; democracia e autoritarismo dizem respeito \u00e0 natureza do exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>O Brasil ocupa posi\u00e7\u00e3o singular nesse cen\u00e1rio. Maior pa\u00eds da regi\u00e3o, re\u00fane desigualdades profundas, forte diversidade territorial e um eleitorado dividido por valores, expectativas econ\u00f4micas e identidades pol\u00edticas. A polariza\u00e7\u00e3o, como vimos nessa \u00faltima elei\u00e7\u00e3o, transformou o pleito em confrontos emocionais. O advers\u00e1rio deixou de ser apenas concorrente para assumir, na ret\u00f3rica dos extremos, a figura de amea\u00e7a \u00e0 p\u00e1tria, \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 liberdade ou \u00e0 justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ambiente que prospera o populismo, fen\u00f4meno que n\u00e3o pertence exclusivamente a uma das margens ideol\u00f3gicas. H\u00e1 populismos de esquerda e de direita. Ambos podem recorrer \u00e0 mesma gram\u00e1tica: o povo contra as elites, os virtuosos contra os corruptos, os patriotas contra os inimigos. A simplifica\u00e7\u00e3o substitui a complexidade. O l\u00edder apresenta-se como int\u00e9rprete exclusivo da vontade popular e promete solu\u00e7\u00f5es imediatas para problemas estruturais.<\/p>\n<p>As redes sociais \u2013 como vimos com o \u201cEx\u00e9rcito de Lula\u201d e a \u201cTropa de Fl\u00e1vio\u201d \u2013 acrescentaram combust\u00edvel \u00e0 fogueira. Seus mecanismos de circula\u00e7\u00e3o e recompensa da aten\u00e7\u00e3o favorecem mensagens emocionais, frases contundentes, ataques pessoais e conte\u00fados capazes de provocar indigna\u00e7\u00e3o. O debate p\u00fablico converte-se frequentemente em espet\u00e1culo. Em vez de programas de governo, prevalecem palavras de ordem e ataques pessoais, em lugar de argumentos, insultos. A pol\u00edtica perde subst\u00e2ncia e ganha decib\u00e9is.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, uma quest\u00e3o que atravessa todas as fronteiras ideol\u00f3gicas: o bolso do cidad\u00e3o. A infla\u00e7\u00e3o, o emprego, a renda, a alimenta\u00e7\u00e3o e o custo da moradia continuam a influenciar decisivamente o comportamento eleitoral. O eleitor pode identificar-se com uma corrente pol\u00edtica, mas costuma cobrar resultados concretos. Quando as promessas n\u00e3o chegam \u00e0 mesa da fam\u00edlia, cresce a disposi\u00e7\u00e3o para experimentar alternativas.<\/p>\n<p>A altern\u00e2ncia de governos na Am\u00e9rica Latina revela, portanto, n\u00e3o apenas uma guerra de ideologias, mas tamb\u00e9m um ciclo de frustra\u00e7\u00f5es. A esquerda promete inclus\u00e3o e justi\u00e7a social. A direita oferece efici\u00eancia econ\u00f4mica, seguran\u00e7a e ordem. Ambas enfrentam a dist\u00e2ncia entre a ret\u00f3rica eleitoral e a capacidade administrativa. Quando fracassam, alimentam a ascens\u00e3o de seus advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>O enfraquecimento do centro constitui uma das consequ\u00eancias mais preocupantes desse processo. A modera\u00e7\u00e3o passou a ser confundida com fraqueza. A negocia\u00e7\u00e3o, com rendi\u00e7\u00e3o. O compromisso, com oportunismo. Entretanto, nenhuma democracia pluralista sobrevive sem di\u00e1logo, respeito \u00e0s diferen\u00e7as e institui\u00e7\u00f5es capazes de limitar os impulsos dos governantes.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar que a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 um bloco homog\u00eaneo. Existem governos de coaliz\u00e3o, partidos h\u00edbridos, lideran\u00e7as personalistas e sistemas eleitorais muito distintos. Reduzir toda essa diversidade a um mapa pintado de vermelho e azul seria trocar a an\u00e1lise pol\u00edtica pela caricatura. A polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tend\u00eancia poderosa, mas n\u00e3o uma senten\u00e7a geogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>O grande desafio latino-americano n\u00e3o consiste em eliminar a esquerda ou a direita. Ambas s\u00e3o express\u00f5es leg\u00edtimas do pluralismo democr\u00e1tico quando respeitam as regras constitucionais. O desafio \u00e9 impedir que suas diverg\u00eancias destruam as pontes necess\u00e1rias \u00e0 conviv\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Entre os Andes e o Atl\u00e2ntico, entre o Caribe e a Patag\u00f4nia, o continente continua procurando um caminho para superar suas antigas desigualdades e suas novas intoler\u00e2ncias. O problema n\u00e3o est\u00e1 na exist\u00eancia de dois lados. Est\u00e1 na incapacidade de reconhecer que, entre eles, existe uma sociedade inteira.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o precisa pensar com uma s\u00f3 cabe\u00e7a. Precisa aprender a viver sem transformar cada diferen\u00e7a em uma guerra. Afinal, quando a pol\u00edtica divide um povo em duas metades irreconcili\u00e1veis, quem corre o risco de desaparecer n\u00e3o \u00e9 a esquerda nem a direita. \u00c9 a pr\u00f3pria ideia de na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>GAUD\u00caNCIO TORQUATO \u00e9 professor em\u00e9rito da USP, escritor, jornalista e consultor pol\u00edtico<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/blog-do-noblat\/artigos\/a-america-latina-partida-ao-meio-por-gaudencio-torquato\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Am\u00e9rica Latina transformou-se em um imenso tabuleiro ideol\u00f3gico, no qual as pe\u00e7as se distribuem entre os campos da esquerda e da direita. O centro pol\u00edtico, que durante d\u00e9cadas abrigou partidos moderados, coaliz\u00f5es pragm\u00e1ticas e projetos de concilia\u00e7\u00e3o, perde espa\u00e7o diante da radicaliza\u00e7\u00e3o dos discursos. 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