{"id":33974,"date":"2026-10-31T12:08:34","date_gmt":"2026-10-31T15:08:34","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalcandango.com.br\/?p=33974"},"modified":"2026-10-31T12:08:34","modified_gmt":"2026-10-31T15:08:34","slug":"a-dor-do-parto-e-a-dor-do-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalcandango.com.br\/?p=33974","title":{"rendered":"A dor do parto e a dor do racismo"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>\u201cEu sinto raiva. Tem alguns m\u00e9dicos que para eles \u00e9 s\u00f3 mais um, \u00e9 mais uma m\u00e3e, \u00e9 mais um beb\u00ea. Mas para a gente \u00e9 um momento \u00fanico, e a gente quer que seja especial. Ent\u00e3o, para mim foi um momento muito doloroso, eu queria que sumisse logo\u201d. \u201cMe senti um peda\u00e7o de carne, sem vida, sem dignidade sobre uma maca\u201d. Estes s\u00e3o relatos de duas mulheres negras que tiveram seus filhos em maternidades p\u00fablicas de Salvador. O racismo atravessa um dos momentos mais intensos e vulner\u00e1veis da vida de uma mulher.<\/p>\n<p>Mulheres negras s\u00e3o submetidas a situa\u00e7\u00f5es de humilha\u00e7\u00e3o, neglig\u00eancia, discrimina\u00e7\u00e3o e perda de autonomia durante o parto. Esse \u00e9 o cen\u00e1rio revelado pelo estudo \u201cRacismo obst\u00e9trico, um debate em constru\u00e7\u00e3o no Brasil: percep\u00e7\u00f5es de mulheres negras sobre a viol\u00eancia obst\u00e9trica\u201d, publicado em 2024 na revista Ci\u00eancia &amp; Sa\u00fade Coletiva.<\/p>\n<p>A pesquisa, realizada por sete pesquisadoras da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (UFBA), entrevistou 25 mulheres, com idades entre 16 e 34 anos, atendidas em uma maternidade p\u00fablica de Salvador. Todas se declararam negras. Entre elas, 60% atuavam em atividades informais ou n\u00e3o remuneradas de cuidado ou trabalho dom\u00e9stico, como dona de casa, bab\u00e1 ou lavradora. 80% tinham at\u00e9 o ensino fundamental ou m\u00e9dio.<\/p>\n<p>As pesquisadoras presenciaram comportamentos preconceituosos contra pacientes que utilizavam tran\u00e7as sint\u00e9ticas e dreadlocks.. \u201cMeu companheiro usa dread no cabelo [\u2026] fomos ignorados principalmente no centro cir\u00fargico que n\u00e3o o deixaram entrar [\u2026]. Al\u00e9m disso, a maioria das pessoas que est\u00e3o nesse cen\u00e1rio s\u00e3o mulheres, e muitas delas estavam insens\u00edveis em meu atendimento. Essas mulheres deveriam estar fortalecendo as outras mulheres a vivenciarem o protagonismo de seus partos e n\u00e3o ajudando a nos colocar em uma posi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o\u201d, diz uma das entrevistadas.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029Va9kFgRId7nRaEwtHh1m\" class=\"flex justify-center items-center gap-3 px-3 py-2.5 bg-green-500 text-white! no-underline! font-bold rounded-full my-4\"><span class=\"inline-flex gap-3 items-center max-w-10\/12 text-sm leading-4.5 font-semibold font-sans tracking-tighter whitespace-pre-line md:whitespace-normal xs:max-w-9\/12 md:text-lg md:max-w-full\"><svg width=\"40\" height=\"40\" viewbox=\"0 0 24 24\" fill=\"currentColor\" aria-hidden=\"true\" class=\"shrink-0\"><path d=\"M17.472 14.382c-.297-.149-1.758-.867-2.03-.967-.273-.099-.471-.148-.67.15-.197.297-.767.966-.94 1.164-.173.199-.347.223-.644.075-.297-.15-1.255-.463-2.39-1.475-.883-.788-1.48-1.761-1.653-2.059-.173-.297-.018-.458.13-.606.134-.133.298-.347.446-.52.149-.174.198-.298.298-.497.099-.198.05-.371-.025-.52-.075-.149-.669-1.612-.916-2.207-.242-.579-.487-.5-.669-.51-.173-.008-.371-.01-.57-.01-.198 0-.52.074-.792.372-.272.297-1.04 1.016-1.04 2.479 0 1.462 1.065 2.875 1.213 3.074.149.198 2.096 3.2 5.077 4.487.709.306 1.262.489 1.694.625.712.227 1.36.195 1.871.118.571-.085 1.758-.719 2.006-1.413.248-.694.248-1.289.173-1.413-.074-.124-.272-.198-.57-.347m-5.421 7.403h-.004a9.87 9.87 0 01-5.031-1.378l-.361-.214-3.741.982.998-3.648-.235-.374a9.86 9.86 0 01-1.51-5.26c.001-5.45 4.436-9.884 9.888-9.884 2.64 0 5.122 1.03 6.988 2.898a9.825 9.825 0 012.893 6.994c-.003 5.45-4.437 9.884-9.885 9.884m8.413-18.297A11.815 11.815 0 0012.05 0C5.495 0 .16 5.335.157 11.892c0 2.096.547 4.142 1.588 5.945L.057 24l6.305-1.654a11.882 11.882 0 005.683 1.448h.005c6.554 0 11.890-5.335 11.893-11.893A11.821 11.821 0 0020.465 3.488\"\/><\/svg>Entre no canal de WhatsApp <!-- --><br \/>\n<!-- -->do<!-- --> <!-- -->Metr\u00f3poles<\/span><\/a><\/p>\n<p>Os relatos apontam que o racismo se manifesta na neglig\u00eancia durante o atendimento. Tamb\u00e9m registraram o deboche de uma m\u00e9dica diante de uma mulher em tratamento por choque hemorr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Um dos mecanismos identificados pelas pesquisadoras \u00e9 a perman\u00eancia do estere\u00f3tipo de que mulheres negras suportam mais dor. Essa concep\u00e7\u00e3o tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas na medicina, que utilizou corpos de mulheres negras e escravizadas em experimentos cru\u00e9is. O m\u00e9dico norte-americano James Marion Sims, considerado um dos fundadores da ginecologia moderna, realizava cirurgias sem anestesia sob a justificativa racista de que mulheres negras teriam maior resist\u00eancia ao sofrimento f\u00edsico.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o dessas mulheres \u00e9 que, apesar da indigna\u00e7\u00e3o, a pobreza as condena ao sil\u00eancio, a n\u00e3o buscar seus direitos . \u201cDepois de tudo que fizeram comigo [\u2026] se eu tivesse poder, eu iria adiante e processaria o hospital, mas eu n\u00e3o tenho financeiro, n\u00e3o tenho intelig\u00eancia para fazer essas coisas n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O nascimento de um beb\u00ea, catarse da exist\u00eancia humana, se transforma em desespero, coa\u00e7\u00e3o, agress\u00e3o, desumaniza\u00e7\u00e3o. \u201cOs corpos de mulheres negras est\u00e3o postos como invis\u00edveis, apontados pela desimport\u00e2ncia da vida, segundo a racialidade, que imprime e determina o descaso e a desaten\u00e7\u00e3o para com esses corpos. Sendo estes atravessados pela zona da desumaniza\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea e estereotipados pelo olhar colonizado\u201d, escrevem as pesquisadoras<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ra\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 g\u00eanero, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 classe social: estudo conclui que os tr\u00eas se combinam para ampliar a vulnerabilidade dessas mulheres na hora do parto. Defende, assim, o enfrentamento conjunto do racismo institucional e da viol\u00eancia de g\u00eanero e o fortalecimento de pol\u00edticas p\u00fablicas antirracistas e da forma\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/blog-do-noblat\/a-dor-do-parto-e-a-dor-do-racismo\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu sinto raiva. Tem alguns m\u00e9dicos que para eles \u00e9 s\u00f3 mais um, \u00e9 mais uma m\u00e3e, \u00e9 mais um beb\u00ea. 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