{"id":30251,"date":"2026-06-02T03:35:53","date_gmt":"2026-06-02T06:35:53","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalcandango.com.br\/?p=30251"},"modified":"2026-06-02T03:35:53","modified_gmt":"2026-06-02T06:35:53","slug":"df-registra-125-mil-afastamentos-por-transtornos-como-ansiedade-e-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalcandango.com.br\/?p=30251","title":{"rendered":"DF registra 12,5 mil afastamentos por transtornos como ansiedade e depress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>O afastamento das atividades laborais ou acad\u00eamicas devido a transtornos mentais <span class=\"highlight\">\u00e9 uma realidade crescente que se imp\u00f5e no Distrito Federal.<\/span> Dados do Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social (<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/previdencia\/pt-br\" rel=\"noopener\">MPS<\/a>) revelam que, embora o total de concess\u00f5es de benef\u00edcios no DF tenha recuado <strong>de 14.771 em 2024 para 12.588 em 2025<\/strong>, <span class=\"highlight\">os \u00edndices permanecem alarmantes.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"highlight\">Condi\u00e7\u00f5es como ansiedade, depress\u00e3o e transtorno bipolar lideram as licen\u00e7as.\u00a0<\/span> Na iniciativa privada, por exemplo, <span class=\"highlight\">o medo do desemprego silencia diagn\u00f3sticos<\/span>. Uma profissional da comunica\u00e7\u00e3o no DF, que preferiu n\u00e3o ser identificada, <span class=\"highlight\">sentia um esgotamento constante<\/span>. \u201cMentalmente, <span class=\"highlight\">eu me sentia drenada, sem conseguir me concentrar ou ter prazer nas coisas que antes faziam sentido para mim\u201d<\/span>, declarou.<\/p>\n<p>Para ela, <span class=\"highlight\">o sintoma mais alarmante foi a perda de conex\u00e3o com a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o.<\/span> \u201cIsso foi o mais estranho, <span class=\"highlight\">ver o prazer profissional se transformar em repulsa.<\/span> <strong>No come\u00e7o, eu mesma minimizava o que estava sentindo<\/strong>\u201d, desabafa. O receio da estigmatiza\u00e7\u00e3o corporativa alimentou o sil\u00eancio inicial.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cTive medo do julgamento, de parecer fraca ou incapaz profissionalmente, mais da chefia do que dos colegas, que at\u00e9 me indicaram psiquiatras por passarem por problemas semelhantes.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>O diagn\u00f3stico de burnout trouxe uma virada de perspectiva. \u201cDepois do burnout, <span class=\"highlight\">entendi que nenhum trabalho pode custar a minha estabilidade<\/span>. <strong>Ainda levo meu trabalho a s\u00e9rio e continuo apaixonada pelo que fa\u00e7o<\/strong>\u201d, pondera. Contudo, <span class=\"highlight\">o desfecho do caso ilustra a vulnerabilidade no mercado privado<\/span>: \u201cVoltei, consegui retornar melhor ap\u00f3s <strong>iniciar um tratamento psiqui\u00e1trico e aos poucos retomava o gosto pelo que fazia<\/strong>. Pouco tempo depois, no entanto, <span class=\"highlight\">fui desligada da empresa sem justa causa.\u201d<\/span><\/p>\n<p>O desligamento abrupto <span class=\"highlight\">evidencia como o mercado, por vezes, opta pelo descarte<\/span> em vez de promover a readapta\u00e7\u00e3o e o acolhimento do colaborador em recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga Karoline Miranda confirma que a redu\u00e7\u00e3o estat\u00edstica local <span class=\"highlight\">caminha na contram\u00e3o de um cen\u00e1rio global cr\u00edtico e indica que o sofrimento pode estar sendo silenciado.<\/span><\/p>\n<p>Ela resgata dados oficiais da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) para ilustrar a magnitude do problema: <span class=\"highlight\">os riscos psicossociais respondem por 840 mil mortes anuais no mundo<\/span> devido a <strong>transtornos mentais e problemas cardiovasculares associados,<\/strong> gerando <span class=\"highlight\">uma perda de quase 1,37% do PIB global.<\/span><\/p>\n<p>Para a advogada especialista em direito do trabalho e da sa\u00fade Adriana Monteiro, <span class=\"highlight\">a queda nos indicadores n\u00e3o se traduz em melhora na sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<blockquote><p>\u201cMesmo com a redu\u00e7\u00e3o geral de concess\u00f5es, o fato de doen\u00e7as mentais permanecerem no topo indica uma mudan\u00e7a no perfil do adoecimento do trabalhador. O sistema previdenci\u00e1rio pode estar mais restritivo, enquanto o adoecimento ps\u00edquico cresce\u201d, analisa Adriana.<\/p><\/blockquote>\n<h2><strong>Na linha de frente<\/strong><\/h2>\n<p><strong>A tese defendida pelas especialistas reflete o cotidiano de quem atua no Estado.<\/strong> O caso da professora Aline Louren\u00e7o, servidora da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o (SEEDF) desde maio de 2013, ilustra como <span class=\"highlight\">o esgotamento \u00e9 constru\u00eddo por rotinas exaustivas e falta de suporte estrutural.<\/span> Ao ingressar na rede p\u00fablica, <span class=\"highlight\">ela deparou-se com turmas em vulnerabilidade extrema, viol\u00eancia dom\u00e9stica e alunos especiais sem diagn\u00f3stico.<\/span><\/p>\n<p>O bom desempenho a levou rapidamente a cargos de gest\u00e3o, onde a carga hor\u00e1ria duplicou. \u201cPelo menos duas vezes na semana eu abria e fechava a escola, 12 horas corridas\u201d, relata Aline. O expediente frequentemente <span class=\"highlight\">se estendia para 14 horas<\/span> <strong>quando era necess\u00e1rio acionar o Conselho Tutelar ou a Pol\u00edcia Militar<\/strong> <span class=\"highlight\">para assistir crian\u00e7as esquecidas na institui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>Para a educadora, <strong>o desgaste gerava uma batalha interna:<\/strong> <span class=\"highlight\">\u201cMeu corpo diz que N\u00c3O, mas a cabe\u00e7a fala: SIM,<\/span> vai, precisam de voc\u00ea, \u00e9 o seu trabalho\u201d. Ela acrescenta que a press\u00e3o do ambiente <span class=\"highlight\">tornou-se uma barreira intranspon\u00edvel. \u201cA demanda nunca termina.<\/span> Por voc\u00ea lidar com pessoas, crian\u00e7as, vidas, <strong>\u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o se cobrar para terminar o que come\u00e7ou ou pelo menos dar o seu melhor.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>As crises f\u00edsicas se intensificaram com epis\u00f3dios frequentes de dores cr\u00f4nicas e ins\u00f4nia. <span class=\"highlight\">\u201cN\u00e3o me lembro a \u00faltima vez que dormi uma noite inteira sem os rem\u00e9dios de dormir\u201d<\/span>, conta. Em 2018, na tentativa de reduzir o ritmo, entregou o cargo de gest\u00e3o e voltou para a sala de aula. <span class=\"highlight\">Foi quando o limite ps\u00edquico se rompeu.<\/span><\/p>\n<p>Al\u00e9m do sofrimento cl\u00ednico, <span class=\"highlight\">Aline enfrentou a falta de acolhimento na per\u00edcia m\u00e9dica.<\/span> <strong>\u201cMuitas das vezes voc\u00ea acredita que ser\u00e1 acolhida pelo m\u00e9dico<\/strong> <span class=\"highlight\">e alguns te tratam extremamente mal.<\/span> Eles olham para voc\u00ea e decidem a sua vida baseado no entendimento prim\u00e1rio de um relat\u00f3rio.\u201d<\/p>\n<p>Diante da recusa da junta m\u00e9dica em conceder uma reintegra\u00e7\u00e3o gradual, Aline gostaria de solicitar a Licen\u00e7a Servidor <strong>para evitar uma nova crise aguda.<\/strong> <span class=\"highlight\">O sentimento atual \u00e9 de descarte.<\/span><\/p>\n<blockquote><p>\u201cMedo de ser aposentada por invalidez sem antes eu poder mostrar que posso contribuir de outras formas. <span class=\"highlight\">Gostaria de n\u00e3o ser tratada como apenas uma matr\u00edcula\u201d<\/span>, desabafa ela, que <strong>agora prioriza a sobreviv\u00eancia<\/strong>: \u201cMinha vis\u00e3o hoje \u00e9 de que o meu trabalho deve estar alinhado com a minha sa\u00fade. <span class=\"highlight\">Quero ter o direito de continuar cumprindo meu papel como servidora, mas sem precisar ficar doente para isso.\u201d<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Confira os dados completos do MPS:<\/strong><\/p>\n<div data-src=\"https:\/\/www.metropoles.com\/distrito-federal\/visualisation\/29163992\">\n<div class=\"flourish-embed flourish-table\" data-src=\"https:\/\/www.metropoles.com\/distrito-federal\/visualisation\/29164070\">\n<h2><strong>O Luto de Bras\u00edlia e o V\u00edcio como Fuga<\/strong><\/h2>\n<p>De acordo com a psic\u00f3loga Karoline Miranda, a linha que separa o estresse cotidiano de um quadro incapacitante \u00e9 t\u00eanue, mas deixa rastros n\u00edtidos quando o trabalho passa a confiscar o per\u00edodo de descanso.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cChega o final de semana e voc\u00ea tenta descansar mas n\u00e3o consegue, sua mente n\u00e3o para. Voc\u00ea saiu do trabalho mas o trabalho n\u00e3o saiu de voc\u00ea\u201d, explica Karoline.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>No Distrito Federal, esse quadro ganha contornos espec\u00edficos<span class=\"highlight\"> devido ao perfil socioecon\u00f4mico voltado ao funcionalismo p\u00fablico e ao setor de servi\u00e7os.<\/span> Karoline relata receber em seu consult\u00f3rio pacientes cuja principal queixa \u00e9 a solid\u00e3o extrema.<span class=\"highlight\"> \u201cS\u00e3o pessoas que deixaram fam\u00edlia e rede de apoio em outra cidade para assumir um cargo p\u00fablico em Bras\u00edlia.<\/span> Sob a \u00f3tica do desenvolvimento humano, <span class=\"highlight\">h\u00e1 um luto n\u00e3o reconhecido pela mudan\u00e7a de lar e de refer\u00eancias seguras.<\/span> <strong>O grande desafio no DF \u00e9 reconstruir esses la\u00e7os de pertencimento\u201d, afirma a psic\u00f3loga.<\/strong><\/p>\n<p>Sem essa rede protetiva, <strong>o ambiente corporativo pode se tornar o estopim para mecanismos perigosos de fuga,<\/strong> incluindo a depend\u00eancia qu\u00edmica de \u00e1lcool, coca\u00edna e medicamentos. Para a especialista, o v\u00edcio costuma ser o sintoma de <span class=\"highlight\">um ecossistema corporativo adoecido, onde o profissional busca no entorpecimento um al\u00edvio para dores existenciais e press\u00f5es cotidianas.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"highlight\">A psic\u00f3loga aponta que o esgotamento gera um colapso multidirecional:<\/span> <strong>o corpo adoece, a mente sobrecarrega, as rela\u00e7\u00f5es se desgastam e o indiv\u00edduo perde o sentido de prop\u00f3sito.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<h2><strong>Solicita\u00e7\u00e3o do afastamento e a responsabilidade das empresas<\/strong><\/h2>\n<p>A engrenagem que adoece o trabalhador n\u00e3o escolhe CNPJ ou regime estatut\u00e1rio. De acordo com a advogada Adriana Monteiro, <span class=\"highlight\">o problema n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o m\u00e9dica, mas estrutural.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cO aumento dos afastamentos por transtornos mentais revela falhas nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, como ass\u00e9dio moral, press\u00e3o por produtividade, falta de suporte psicol\u00f3gico e ambientes organizacionais t\u00f3xicos\u201d, afirmou.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Do ponto de vista jur\u00eddico, <span class=\"highlight\">esse cen\u00e1rio pode gerar a responsabiliza\u00e7\u00e3o direta do empregador.<\/span> <strong>Quando comprovado o nexo causal, ou seja, o v\u00ednculo direto<\/strong> entre as din\u00e2micas da empresa e o esgotamento do funcion\u00e1rio, <span class=\"highlight\">abre-se espa\u00e7o para indeniza\u00e7\u00f5es e o reconhecimento de doen\u00e7a ocupacional equiparada a acidente de trabalho.<\/span><\/p>\n<p>O maior desafio pr\u00e1tico <span class=\"highlight\">permanece na comprova\u00e7\u00e3o da incapacidade perante a per\u00edcia m\u00e9dica do INSS ou dos \u00f3rg\u00e3os locais.<\/span> Como as patologias dependem de avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica subjetiva, <span class=\"highlight\">o trabalhador precisa respaldar-se com um hist\u00f3rico m\u00e9dico cont\u00ednuo, composto por laudos detalhados com indica\u00e7\u00e3o do CID, receitu\u00e1rios atualizados e relat\u00f3rios terap\u00eauticos.<\/span><\/p>\n<p>A especialista conclui alertando para a necessidade <span class=\"highlight\">urgente<\/span> de evolu\u00e7\u00e3o institucional:<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cEstamos diante de uma mudan\u00e7a profunda no perfil de adoecimento do trabalhador brasileiro. O direito do trabalho e o direito previdenci\u00e1rio precisam evoluir para lidar com doen\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis, mas s\u00e3o altamente incapacitantes, sob pena de deixar desprotegida uma parcela cada vez maior da popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/distrito-federal\/df-registra-125-mil-afastamentos-por-transtornos-como-ansiedade-e-depressao\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O afastamento das atividades laborais ou acad\u00eamicas devido a transtornos mentais \u00e9 uma realidade crescente que se imp\u00f5e no Distrito Federal. Dados do Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social (MPS) revelam que, embora o total de concess\u00f5es de benef\u00edcios no DF tenha recuado de 14.771 em 2024 para 12.588 em 2025, os \u00edndices permanecem alarmantes. 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